quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

O que mais pode haver por trás das velhas fotografias além daquilo que consigo enxergar? O que elas não me contam e não conseguem me mostrar?

Ontem revirei algumas caixas velhas que há muito não eram mexidas, encontrei um retrato antigo com a imagem de um rapaz com barba por fazer, olhos verdes, corpo magro de pele pálida, sorria de tudo. As bochechas vermelhas não disfarçavam a timidez, com aquele jeito de que sabe o que quer, que não tem medo. Tentando vencer as enlouquecedoras ansiedades que lhe consumia todos os dias. Ele já viveu a vida com mais vontade, mas hoje não se importa em morrer só numa cama de um quarto de hotel qualquer. Ele olhava desafiadoramente no fundo dos meus olhos, fazendo-me sorrir, quando na verdade queria gritar e berrar tão alto que acordaria toda a rua. Não o reconheço mais, além das lembrança ditas aqui. Achei mais umas fotos dele, o corte de cabelo é o mesmo, o físico, o estilo das roupas, mas esta foto tem algo diferente, algo no olhar falta-lhe algo por dentro, é como se estivesse faltando um pedaço dele, como se ele estivesse mais vazio do que um deserto. Ele foi se perdendo aos poucos e viu que não vivia mais, esquecendo conceitos, teorias, teses, trabalho, opinião, horário, compromisso, qualquer vida lá fora e naquela hora não existia mais nada, além de um enorme vazio no peito, olhei bem de pertinho e percebi que estava olhando as minhas fotos velhas. Perdi meu estado de harmonia, e sem qualquer ato profano contei até três e comecei a estrangular-me com meus próprios dedos, que se apertavam aleatoriamente em meu pescoço até minhas mãos tremerem e minha visão se esvanecer, meu coração apertou, escutei leves batidas que fortemente aumentaram em ritmo e em sons. Me doía a garganta, mas não me queixei fiz com mais força cerrei os punhos e me dei um soco no estômago, senti o sangue queimar-me até os ossos como lava derretida. Desisti por não saber o que estava fazendo, mas não queria mais ser imagens, senti no peito algo que não consigo definir. Uma coisa eu sei, não quero mais ser imagens e antes que o meu pescoço se torça guardei as imagens e me despedi de mim com um até já, pois estarei sempre lá. Fotos são como textos, elas sempre me revelam histórias, e, muitas vezes é preciso ler suas entrelinhas para poder desvendar seus múltiplos significados.
Pablo roberto

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